quinta-feira, 19 de abril de 2012

É chegado o tempo da pessoa - Editorial da revista Passos de maio em primeira mão

É CHEGADO O TEMPO DA PESSOA

“Quando a mordaça de uma sociedade adversa se aperta à nossa volta a ponto de ameaçar a vivacidade de nossa expressão e quando a hegemonia cultural e social tende a penetrar o coração, aguçando as já naturais incertezas, então é chegado o tempo da pessoa.”


É impressionante a atualidade dessa afirmação de Dom Giussani! Vivemos tempos em que os fundamentos que geraram o povo brasileiro são questionados por um judiciário que se sente detentor das luzes e da autoridade para remover dos lugares públicos os sinais da fé cristã, para “reformular” o conceito de família e para liberar o aborto de malformados. Em nome da separação entre Estado e Igreja (diga-se de passagem, uma das grandes invenções do Cristianismo), nega-se o poder dos representantes eleitos pelo povo para legislar sobre esses assuntos.

Mas o que é o “tempo da pessoa”? É o tempo de reconhecermos que a trama da fé que sustentava o nosso povo já não existe mais. É o tempo de começar a reconstruir o templo, o lugar de interseção do Infinito com o cotidiano – e esse lugar é a pessoa de cada um de nós.

Este é o tempo de perceber que precisamos de uma educação da fé para chegarmos a uma inteligência da realidade. Tempo de nos perguntarmos “qual é a minha certeza hoje?”. De refazermos aquele percurso de certeza sem o qual a fé subsistirá somente como “valores cristãos”. Aquele percurso que os apóstolos fizeram, partindo do que viram e tocaram e chegando à afirmação da divindade dAquele homem, Cristo.

Tempo não só de crescer na certeza, mas também de nos perguntarmos como comunicá-la. Como se comunica o acontecimento cristão? O olhar com que o homem Jesus olhou a samaritana se tornou o olhar com que os apóstolos Pedro e João olharam o paralítico na porta do templo. E se tornou o olhar que o jovem Policarpo sentiu sobre si no final do primeiro século, vindo daquele mesmo João. E foi o mesmo com que o ancião Policarpo olhou Irineu, e este o levou para a distante França... esse olhar, transmitido ininterruptamente através dos séculos, chegou até nós.

A defesa explícita da vida é necessária, assim como a contemporaneidade daquele olhar. E por ele todos anseiam: os malformados, tratados como não pessoas; a mãe, surpreendida pela dor da notícia de carregar em si uma criança diferente; e o juiz que legisla por uma causa de morte.

COMUNHÃO E LIBERTAÇÃO

Um desafio para a educação - parte 1

“Como pode um professor dar uma boa aula se ele é quase um escravo, ganha um salário indigno e ainda tem os alunos que não se interessam por nada”? – essa foi uma pergunta feita por um professor a uma senhora. Na verdade essas são as críticas feitas por quase todos, basta gastar um tempo numa sala de professores de qualquer escola para escutar as mesmas reclamações.

Estes mesmos professores, quando pensam em soluções, as fazem partindo das únicas variáveis que eles não controlam: os alunos e o sistema educacional. Para uns, para que a escola cresça, é preciso retirar os alunos desinteressados, “uma maçã podre estraga o cesto”. Outros dizem que a solução é que os colégios entrem no ritmo de “uma educação para o vestibular/Enem”, e todo o foco do ensino deva ser o de preparar os alunos para uma prova.

Há alguns anos o ideal da educação era o de forma cidadãos. Para isso, até o professor de matemática deveria ensinar uma visão crítica do mundo – e a matemática ficava em segundo plano. Hoje a situação se agravou e o objetivo do ensino é que os alunos consigam marcar bolinhas. A meu ver, nenhum e nem outro (ainda que o segundo seja uma redução ainda mais agressiva).

***

Num trecho de um romance do Joseph Conrad , o autor nos fala sobre o trabalho. O personagem havia usado todo o dinheiro em um barco que afundara antes dele sequer vê-lo, e agora precisava reconstruí-lo: “Subi a bordo. O casco ressoava sob os meus pés como uma lata vazia de biscoitos que você saísse impelindo aos pontapés pela sarjeta; sua constituição não era anda sólida, sua forma não tinha nada de bonito, mas eu empregara naquele barco uma quantidade suficiente de trabalho árduo para começar a amá-lo. (...) Ele me dera a oportunidade de revelar-me um pouco – descobrir do que eu era capaz. Não. Não que eu goste do trabalho. Prefiro me entregar à preguiça e ficar só pensando em todas as coisas que podem ser feitas. Não gosto do trabalho – ninguém gosta – mas gosto do que o trabalho proporciona – a oportunidade de se encontrar. A sua própria realidade – para você, não para os outros – que nenhum outro homem jamais terá como conhecer”.

***

A senhora do início desse artigo respondeu à pergunta do professor: “o problema é que se confunde trabalho com salário. Não se percebe que são coisas diferentes. O trabalho é uma vocação e, no caso do professor, quando este o exerce de modo errado ele mata o futuro de pessoas, arruína o sonho de muitos”. Talvez seja esse o primeiro ponto ao qual tenhamos que resgatar: “o trabalho como vocação”, i.e., como uma inclinação que eu decido responder porque me constrói e constrói a outros. Continuaremos.

PUC - Pontifícia Universidade Católica

A discussão a respeito do secularismo da PUC-SP está em alta e cresceu graças ao pronunciamento de Dom Luiz Bergonzini. Ele defendeu que a Universidade, por ser católica, deve se fundamentar nos princípios cristãos. Não poucos foram os arautos da “liberdade” que se levantaram contra o que consideraram a fala totalitária do Bispo. Para compreender as nuances da discussão devemos nos livrar do típico preconceito secularista que, direta ou indiretamente, toma conta da consciência do homem moderno.

A liberdade de expressão não é “unidirecional”, do contrário estaríamos falando do sonho dos totalitários, ou seja, da liberdade de alguns poucos se pronunciarem enquanto muitos outros são sistematicamente taxados de “reacionários”, “fascistas”, “medievais” etc. Em um dos artigos do estatuto da PUC-SP se diz que o cumprimento da sua missão “orienta-se, fundamentalmente, pelos princípios da doutrina e moral cristãs” e que “dentro desse espírito, assegura a liberdade de investigação, de ensino e de manifestação de pensamento”. Ora, estamos falando, portanto, de uma instituição católica e que se alicerça em claros paradigmas cristãos. Vale frisar que o que é proposto não é a transformação da sacralidade acadêmica numa aula de catequese paroquial, mas sim que o ethos que sustenta a vida universitária é, obviamente, cristão.

Os revoltosos secularistas afirmam que se a PUC aderisse ao que a ela é pedido se distanciaria da essencial liberdade de expressão. Entretanto, a PUC-SP não é a única Universidade do mundo e, ao que me consta, ninguém ingressou nela sem saber o que representam as letras “P” e “C” que aparecem na sua sigla. Ademais, nunca haverá um ambiente universitário livre de influências externas, sejam elas políticas, religiosas, ideológicas – as nossas Universidades Federais que o digam. Assim, é natural que os homens que constroem as Academias – não, elas não caem do céu e nem brotam por partenogênese – estejam unidos por um projeto comum. Foi assim que surgiram as Universidades historicamente e foi assim que nasceram diversas instituições acadêmicas das mais variadas matizes; comunistas, luteranas, católicas, liberais, umbandistas etc.

Destarte, é assustador perceber como um grande número de jovens e pensadores não percebe a gravidade de tamanha incoerência. Tal grupo advoga o direito de estudar e lecionar numa instituição católica e de defender uma agenda moral que vai de encontro com aquilo que é defendido, quer gostem ou não, pela Igreja, mas sequer aceita o direito da mesma instituição católica de querer ser católica e de se posicionar no mesmo aspecto. Trata-se de uma liberdade de expressão enviesada e assustadoramente ideologizada. Devemos buscar viver realisticamente, só assim será possível nos afastar do desejo idealista que sempre ronda o coração.

Dignidade do anencéfalo

O Supremo Tribunal Federal aprovou no dia 12 de abril a descriminalização do aborto em fetos anencéfalos alegando que não pode existir vida sem atividade cerebral, levando a uma interpretação segundo a qual tais bebês já nascem mortos; além disso, defendendo a suposta dignidade materna, de não querer levar ao fim uma gravidez que resultará em um bebê que talvez sobreviva apenas algumas horas.

Não é razoável justificar tal aborto, afirmando que a dignidade materna será respeitada se desfazendo de seu filho anencéfalo e nem afirmar que estes não estão vivos.

Toda vida é um dom, significa doada por Outro. Não cabe a nenhum de nós o poder de sobre tal vida. Não temos plenos poderes nem sobre a nossa própria vida, quanto menos sobre a de outro indivíduo. A dignidade do feto anencéfalo, que, ao contrário do que dizem, pode sobreviver extra útero, mesmo que brevemente, deve ser respeitada. Tal respeito a um vida não desrespeita em nenhum momento a dignidade da mãe.

Tal argumento contrário à vida, justificado por uma “dignidade” juridicamente inventada parte de um uso redutivo da razão. “Se o feto não será um ser humano saudável que contribuirá para a sociedade, e terá uma vida breve, por que não encurtar ainda mais sua permanência entre nós, realizando um aborto que gerará menos danos psicológicos para a mãe”, pensam alguns. Existe uma lógica nisso, mas a razoabilidade não corresponde à lógica, a lógica é apenas um ideal de coerência. Partindo-se de uma hipótese errada, mesmo utilizando corretamente a lógica, chega-se a uma conclusão errada. É como a matemática. Razão não é igual à lógica! Logo, se parto da hipótese errônea que levar a termo que “a gestação de um anencéfalo vai causar mais danos psicológicos à mãe e irá contra sua dignidade”, não interessa que lógica eu use, vou chegar a uma conclusão errada, não razoável.

O bom uso da razão demanda uma observação da realidade, em todos os seus fatores, inclusive que o feto existe, é uma vida dependente da mãe, mas difere dela, como qualquer feto sem anencefalia. Um ser humano que depende, como todos nós dependemos um dia.

O aborto de um anencéfalo é tão criminoso quanto um aborto de um feto ”normal”, uma vez que são igualmente dependentes da mãe. Ambos têm direito à vida, mesmo que esta vida seja breve.

Editorial - Uma lógica perversa

Eis que surgem homens imparciais, justos, igualitários, defensores da liberdade, que vieram para salvar o mundo – ou pelo menos o Brasil - de todas as injustiças que foram impostas ao povo por moralistas opressores. Tais homens, que também tentam parecer serem detentores da verdade, uma verdade à qual todos poderiam chegar, bastando apenas seguir uma linha lógica, traçada por eles mesmos.

Estes homens, através de uma lógica perfeitamente estruturada dizem defender a dignidade humana apoiando – ou melhor, aprovando judicialmente - o aborto de anencéfalos. Alegam, eufemisticamente, que tais “seres” são considerados “juridicamente mortos”. Puderam fazê-lo, pois, aparentemente, possuem o poder de separar o que deve e pode viver do que pode – e deve – ser morto. Em nossa bússola, surge a questão: que tipo de dignidade humana é esta, defendida por tais homens, que se é obtida através de uma permissão de assassinato aprovada por lei? Ou há alguém que discorde que a fecundação de um óvulo por um espermatozóide gera, inevitável e indubitavelmente, a vida - neste caso - humana?

Em outras esferas da sociedade, homens com tais “qualidades” defendem sua visão de mundo como a única justa. Então, como defensores da liberdade por excelência, transmitem tal visão de mundo que, por ser a única correta, deve ser a única a prevalecer e, então, todos serão libertados dos pensamentos e morais impostas por classes dominantes. Nossa bússola insiste, com outras questões: Todos, então, serão livres pensadores se pensarem da mesma forma? Não é uma imposição fazer prevalecer uma única visão impedindo outras de se manifestarem?

Tais homens defendem a justiça, igualdade e dignidade humana através de leis –injustas - que permitem o assassinato, negando a dignidade de um ser humano por ser desigual ao que é “juridicamente vivo e perfeito”. Outros homens, defendem a liberdade e a imparcialidade através da imposição de ideias e ideais-padrão que devem ser seguidos por todos.

Os primeiros e os segundos “homens” possuem pontos em comum: justificam suas ações e pensamentos como “secularistas”, mas, negando qualquer ética que provenha de religiões, constroem uma outra, baseada apenas no que for mais conveniente no momento. Negam-se, assim, valores construídos ao longo de séculos – e até milênios – da nossa civilização ocidental. Esta negação e reconstrução é sempre justificada por uma característica marcante destes homens: uma lógica perfeitamente estruturada, perfeita apenas em estrutura, pois seus resultados demonstram, na prática, que se trata de uma lógica perversa.

domingo, 11 de março de 2012

“O Artista”, a Arte e a Tecnologia - texto sobre o filme “O Artista”


Causa estranhamento um filme mudo e em branco e preto em pleno ano de 2012. Chega-se a pensar que é uma reprodução de algum longa-metragem antigo. Mas não é! Desta forma inusitada a fita nos mostra não só que não é necessária a utilização de recursos de alta tecnologia para fazer uma excelente produção, mas que a comunicação não se dá apenas por palavras, também por gestos e expressões, que, por vezes, dizem muito mais.

O longa se passa em meados da década de 1920, conta a história de um astro de cinema mudo, George Valentin que começa a ver sua carreira desmoronar por não aceitar a nova forma de se fazer filmes, o cinema falado. Ao mesmo tempo, Peppy Miller, graças à ajuda de George no início, começa a ascender em sua carreira de atriz. George e Peppy acabam por se apaixonar e a trama do filme se desenvolve a partir deste romance. Enquanto um está em crise na carreira, o outro torna-se uma estrela, analogamente à transição do cinema mudo para o cinema falado.

Para não ir além e contar o final – o que poderia deixar alguns leitores muito descont
entes – chamo a atenção para outra analogia do filme com as transições do cinema, neste caso, no cinema atual: a transição da projeção de película 35 mm para a projeção digital ou ainda, a utilização de animações e efeitos especiais contra a valorização da atuação por si só.

A primeira questão é principalmente sobre qualidade de imagem. A segunda: animações e efeitos especiais contra a atuação. Não que um exclua totalmente o outro, mas o que muitas vezes acontece é que os efeitos especiais e animações são supervalorizados, em detrimento da atuação.

Filmes com a finalidade comercial acima da artística costumam pecar neste aspecto, tornam-se filmes para espantar pela qualidade da tecnologia, para se dizer “olha, esta explosão parece de verdade!”. No entanto, é um espanto que, acompanhado por um saco de pipocas e coca-cola, não passa de uma distração. É muito diferente de um espantamento causado pela bela atuação do elenco de um filme, que é algo que pode chegar a comover pela beleza, é um espanto que não distrai, mas nos provoca e comove. A provocação que se torna ainda maior sendo um filme feito como os antigos, de épocas nas quais nem sequer a imaginação mais fértil conceberia a tecnologia que temos hoje. E mais: durante todo longa há apenas uma fala do ator principal. Isto nos faz pensar que aquilo que nos provoca por ser tão belo não parte da tecnologia. Parte do humano. E não é dependente de palavras, pois pode ser comunicado por gestos, por uma expressão, por algo que nossa visão nos permite perceber que, realmente “vale mais que mil palavras”.

Este filme, concorrendo a prêmios – e vencendo muitos deles - com tantas outras “superproduções digitalizadas” nos mostra que a tecnologia não é obrigatória à expressão artística e também não pode, nem consegue suprimí-la. No desenrolar do enredo, ao se observar a história de George Valentin, surge uma outra questão: a arte e o artista podem se expressar mesmo após mudanças tecnológicas ou, como equipamentos eletrônicos, tornam-se obsoletos? Assistam a este excelente filme e, no final, saberão!

Enfrentando os desafios de ações em doenças infecciosas emergentes a partir do realismo existencial


Desde 2005, temos desenvolvido um projeto de extensão universitária, ministrando palestras sobre doenças infecciosas emergentes como dengue, tuberculose, hanseníase, leishmaniose, entre outras, para comunidades carentes, além de realizar campanhas de detecção de tuberculose (TB) e de hanseníase. De alguma forma, não bastava. Nas campanhas, conseguíamos detectar poucos casos e nas palestras, nem sempre as pessoas estavam atentas. Isso nos corroía por dentro. Faltava algo. Em um Simpósio de tuberculose, ouvimos uma ex-paciente de TB dar o seu testemunho. Ela vivia na favela da Rocinha, passou por dois tratamentos contra a doença. Decidiu ajudar sua comunidade, realizando busca ativa e acompanhando quem estava em tratamento. A partir desta iniciativa, entendemos por onde deveríamos caminhar. Formar pessoas da própria comunidade, capacitando-as. Decidimos realizar um curso de atualização diagnóstica em doenças infecciosas emergentes para agentes comunitários de saúde.

Na segunda edição do curso, que foi em 2010, começamos a primeira aula dizendo aos alunos: “Não estamos aqui para emitir certificados, estamos aqui para lhes provocar, provocar a olhar para a realidade, que ela lhes corroa. Que vocês não durmam mais tranquilos. A responsabilidade é pessoal.” E assim foi. No dia da campanha de busca ativa de casos de TB, um agente comunitário estava muito feliz por ter conseguido trazer uma senhora que havia muito tempo que não queria fazer o exame e que só estava lá porque nosso antigo paciente a tinha acompanhado. No final desse dia, os alunos nos diziam que aquilo que eles haviam vivido era irreal, de tão ideal que era. Um deles relatou: “Nunca mais vou esquecer que a realidade nos provoca”. E o lema do curso que se tornou camiseta: “A realidade nos desperta”.

A cada ano cresce o desafio porque temos que retomar o significado. Nada é óbvio. O que foi o ano passado pode não ser o mesmo este ano. Aos poucos, escutando os alunos reportarem como está o diagnóstico de hanseníase em seus postos de saúde, vamos novamente entendendo qual é o nosso novo desafio. Continuar provocando, agora não apenas os agentes de saúde, mas os demais profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, e outros. E lá fomos nós incomodando novamente: “O paciente abandona o tratamento por falta de qualidade no atendimento...“. Continuamos a fazer uma trajetória, nos empenhando com a certeza que aquilo que aprendemos com o padre e filósofo italiano Luigi Giussani nos lança ao desafio de olhar para a realidade com toda energia, retomando sempre o significado daquilo que fazemos, e nos salva da hipocrisia.

Aparecida Tiemi Nagao-Dias - coordenadora do projeto (Universidade Federal do Ceará); João Carlos Chaves – bolsista de Extensão; Alexandre Casimiro de Macedo – farmacêutico

(Texto publicado também na revista PASSOS: http://passos.tracce.it/)

Dom da vida X Uso da vida

Nasce no Brasil primeira criança manipulada geneticamente em laboratório. Maria Clara Reginato Cunha, foi pensada, planejada, selecionada dentre tantos embriões e concebida para doar medula óssea para sua irmã de 5 anos que sofre de Talassemia Major, uma doença genética na qual a medula óssea não produz glóbulos vermelhos na freqüência necessária, provocando anemias graves, e em sua forma mais grave, pode levar à morte.

Nasceu com uma função, salvar a sua irmã! Louvável, se não fosse o fato de ter perdido 15 potenciais irmãos no caminho para que fosse a vitoriosa escolhida!

Foram duas tentativas; na primeira, seis embriões, mas todos com a doença; na segunda tentativa, dez embriões, mas apenas dois sem a doença. Somente Maria Clara era totalmente compatível com sua irmã doente e foi a escolhida, aumentando assim, as chances obter sucesso no transplante.

Duas questões me vêm à cabeça ao me deparar com esta situação. Primeiro, um filho é um dom, doado, fruto de um amor, de um relacionamento homem e mulher. Ao planejar a concepção de uma criança dessa maneira, o seu sentido original de dom é reduzido, a sua dignidade humana é reduzida sobressaltando-se o seu uso, a sua função: nasceu para alguma coisa.

O nosso mal é que hoje em dia, não somos acostumados a olhar o que nos é dado, ou aquilo que está na realidade como Presença de algo maior. Tudo, absolutamente tudo, seja fácil ou difícil, bom ou ruim, tem um destino positivo, bom! A manipulação gênica somente é aceita para detectar a viabilidade do embrião ou detectar doenças hereditárias. Escolher o sexo, verificar compatibilidade e gerar crianças cujo fim não seja a procriação humana são procedimentos ou proibidos ou não regulamentados. Segundo, para que Maria Clara fosse a vitoriosa e salvasse sua irmãzinha, 15 embriões, possíveis irmãozinhos, foram descartados por não contemplarem as características necessárias para a compatibilidade com a irmã. Esta prática lembra a eugenia que é a reprodução que busca o “melhoramento” da raça humana. Conceito usado por outros grandes líderes.

Quanto vale uma vida? Quantas vidas são possíveis desperdiçar para que uma seja salva? Temos que tomar cuidado para não reduzirmos o ser humano, para que o seu uso não seja superestimado em detrimento do dom que é a sua vida! E prestar atenção àquilo que a realidade nos coloca, pois ali encontraremos a verdade e poderemos fazer a escolha certa!

Por que é assim?


Essa pergunta brota espontaneamente quando estamos diante de algo bonito, intrigante, mas também diante de algo doloroso ou incompreensível. Perguntar-se “por que?” é espontaneamente natural. Não somos nós que decidimos. É algo que emerge em nós sem nos consultar. O nosso livre arbítrio entra em jogo depois. Aí então podemos censurar, calar, distrair-nos... um segundo depois que a pergunta apareceu.

Outro dia, num simpósio acadêmico de alto nível, cheio de homens de ciência, assisti a um espetáculo parecido. As novas descobertas relatadas eram fascinantes demais! Mas o que mais me chamou a atenção é que às perguntas “por que?” o palestrante respondia com um “como”. Essa pequena mudança foi tão sutil que talvez quase ninguém notou. “Por que o gene funciona assim? Porque o mecanismo da síntese protéica...”. “Por que essa criança sofre essa situação? Porque o contexto social em que ela cresceu...”. “Por que as estrelas brilham no céu? Porque a energia que produzem...”. Numa fração de segundo, olhando para a curiosidade que também em mim brotava, entendi que todos nós desejávamos inconscientemente algo mais.

Reduzimos nossa exigência de significado ao desejo de conhecer um mecanismo. É o triunfo do positivismo, que diz “só existe aquilo que vejo, sinto, toco. O resto é abstração”.

Obviamente conhecer o mecanismo é interessantíssimo. Digo mais, é o sex-appeal da realidade. O problema é quando nos detemos aí, paramos na análise. Esta parece que nos satisfaz, parece ser mais profunda... Ao contrário, a análise nos deixa na superfície, não fala nada da natureza das coisas.

Os tempos de hoje nos sufocam. Não tanto porque nos preenchem de coisas para fazer, nem porque nos impõem uma competitividade desumana ou por ditarem modelos que todos devemos seguir. Mas porque conspiram para nos convencer que “por que“ e “como” são sinônimos.

Deixar-se ferir pelas coisas que cruzam o horizonte de nossa consciência... isto sim é digno da estatura do ser humano. Isto sim abre a porta para uma vida como aventura. Isto sim revela que a “abstração” é, no fundo, a realidade na sua profundidade.

Editorial - Comodismo e superficialidade ou criticidade e liberdade?


Na busca dos porquês na arte, em questões de bioética ou em projetos de extensão universitária - e não só nestas, mas em todas as outras situações possíveis - nos são colocadas duas opções sobre o nosso posicionamento a respeito da realidade: viver sem profundidade alguma, superficialmente, ou aprofundar-se no significado das coisas. É uma questão de escolha entre uma posição mais cômoda ou uma posição de inquietude, comoção e ação diante da realidade.

É natural em nós a busca pelos porquês. Entretanto, já que possuímos liberdade até mesmo para calá-la, optamos pelo fácil: anestesiamos-nos e não nos abrimos a esta busca. Realmente, é muito mais cômodo negar esta inquietação natural e permanecer igual aos outros à nossa volta, à mercê de tudo aquilo que é imposto por uma opinião dominante como o “correto”, “bom” e “justo”. Como é fácil fazer isto! Mas é justo fazê-lo? É justo negar nossa capacidade de ir mais a fundo na vida e na realidade para viver na superfície das coisas?

Parece que tudo distrai desta busca natural pela profundidade. Meios de comunicação e a “massa acrítica” ao nosso redor nos dizem que precisamos comprar determinados produtos para sermos felizes. Para sermos bonitos, uma determinada forma física. Para sermos legais, precisamos beber muito na balada. Que ótimo! Já deram toda a fórmula para a felicidade! Mas, onde entra o eu nesta história?

Muitos se detêm nesta fórmula mágica sem prestar atenção a si mesmos e, assim, sujeitam-se aos padrões ditados por quem detém o poder de criar opinião. Tornam-se nada além de objetos a serem manipulados, sem liberdade de escolher por si só. Fazer isto é assumir a vida como algo vil, tendo valor apenas conforme os outros dizem que o tem. Desta forma, só se tem valor quando se tem utilidade. Já que a vida não possui valor inerente, só o possui quando dizem ser útil, pode-se usufruir ou livrar-se de tudo aquilo que é “inútil”: fetos e embriões, idosos, pessoas em coma; afinal, é muito justo fazê-lo, é uma questão de saúde pública e bem comum, é eliminar aquilo que é indesejado. Esta posição é realmente justa?

De um lado há a hipocrisia da posição cômoda e superficial: negar a si mesmo para ser igual a todos e fazer tudo que outros dizem ser “bom”. Do outro, há a posição de inquietude: buscar aprofundar-se. A realidade nos provoca a buscarmos uma profundidade em tudo, ou melhor, “A realidade nos desperta” do torpor da superficialidade. Temos toda a liberdade e capacidade para decidir por nós mesmos e enxergar, finalmente, que a superficialidade apenas nos distrai, produz uma dependência – sempre há algo mais para comprar, emagrecer ou beber – portanto, nos tira a liberdade. Então, mais verdadeiro não é ser uma mera construção dos outros, mas sim buscar os porquês através da nossa capacidade natural de questionamento e criticidade, sermos despertos e livres, buscando sempre, intensamente, a profundidade.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Universidade e Comunidade: "Extensão Universitária" pra quê?


Hoje é consenso que a universidade tem que estar voltada para a comunidade da qual participa e não só fechada em si. Inclusive um dos critérios com os quais as instituições são avaliadas são os projetos de extensão.

Há muitas alternativas por aí. Mas o que é que fica dos trabalhos comunitários e do voluntariado que nossos colegas e nós fazemos? “Aprendemos o que é cidadania” costumam responder. Talvez isso seja pouco demais... Sem falar na tentação do paternalismo.

Nas últimas semanas de janeiro deste ano alguns universitários no Rio de Janeiro e outros em São Paulo se mudaram para bairros da periferia das suas cidades por um único motivo: compartilhar o tempo com aquela população, suas necessidades, suas expectativas, seus sonhos.

Um amigo nosso contou que jogando bola com as crianças de uma favela notou que a maioria jogava descalça. Ele, então, decidiu comprar um par de tênis para um deles. Depois um outro viu e também quis. E depois um outro, e outro... de repente a necessidade que ele tinha diante de si era muito maior do que ele podia responder.

Essa foi a experiência daqueles dias. Foram dias gostosos, alegres, mas em que experimentamos essa desproporção entre a necessidade encontrada e a nossa capacidade de respondê-la.
Uma outra amiga respondeu àquele do tênis: “você errou. Você não deveria ter comprado um tênis. Deveria ter tirado o teu e jogado com eles descalço”.

Essa desproporção e esse senso de partilha têm um efeito maior do que “ensinar cidadania”. Falam algo de nós a nós. Mesmo se conseguíssemos acabar com toda a pobreza do mundo, à noite, sozinhos no nosso quarto, estaríamos definitivamente satisfeitos?

“De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e depois perder a si mesmo? O que pode o homem dar em troca do próprio eu?”

Quando se intui que é nesse nível que se encontra a necessidade de todos, percebe-se que o maior que se pode oferecer àquela gente é uma companhia.

Foi isso que vivemos naqueles dias e que continuaremos agora durante o ano nos finais de semana. Todos são convidados.

Universidade: lugar de formação do indivíduo e da sociedade


Estudando um pouco sobre a história do Brasil, me dou conta de um fato interessante: durante as décadas de 20 e 30, diversos âmbitos da sociedade estavam se perguntando o que era o Brasil. Uma imagem bastante interessante me veio ao ler um livro sobre o samba. Nele, era descrita uma mesa na qual Cartola, Noel Rosa e outros dois grandes intelectuais brasileiros discutiam sobre o samba e a sua relação com o Brasil.

Essa imagem ficou em minha mente. E uma pergunta quase imediata me veio: hoje, percebemos esse diálogo? Tristemente podemos notar que ele quase não existe. A universidade tem se tornado uma ilha separada, fora da sociedade. Mas por quê? O que tem acontecido?

Podemos entender a época da universidade como um período de passagem. Entramos como jovens adolescentes e saímos podendo nos considerar adultos responsáveis, capazes de trabalhar e construir. Mas encontramos lá dentro diversas realidades, das quais destacaria duas: a dos alunos que se envolvem em movimentos sociais e a dos que levam a universidade como um prolongamento do colégio.

Os primeiros lutam por uma sociedade melhor, ou pensam nisso. Mas frequentemente se diluem em seus grupos, esquecendo-se de si mesmos e tendo como sentido último uma utopia ou ideologia. O outro grupo prefere ir à universidade como se fosse a uma aula de escola, excluindo o nexo com a sociedade, dizendo respeito unicamente a ele mesmo. Esses não são capazes de construir muita coisa no mundo, aqueles não constroem o próprio eu.

Deve haver alguma postura mais justa. Mas qual? Lembro que escutei de um professor uma reclamação sobre os alunos de hoje: “eles não vivem mais a universidade!”. Perguntava-me o que seria isso.

Voltando à imagem do início, percebi que essa busca pela própria identidade (o que é o Brasil?; quem somos nós?) era o que movia não só os intelectuais, mas também outras pessoas. Porque carregavam uma mesma pergunta, era possível o diálogo entre elas (mesmo nem sempre tendo opiniões semelhantes). Sendo assim, elas partiam de uma pergunta que, no fundo, era “quem sou?” e “qual o sentido disso tudo?”

E hoje? Talvez pudéssemos dizer que os acadêmicos não trazem mais perguntas. Mas tendo a não acreditar nisso: afinal, não dá para extirpá-las de nós. Então, intuímos que viver a universidade passa, necessariamente, por carregar essas perguntas vivas dentro de nós, colocá-las diante dos estudos e relacionamentos, e isto dentro da universidade, nosso ambiente.
Penso que partindo daí podemos não só superar essas reduções (esquecer do mundo ou de si), mas, quem sabe, também fazer da vida algo parecido com alguns desses belos sambas.

O que é a universidade? Que utilidade ela tem para a vida?


Hoje a universidade adquiriu a função predominante de ensinar uma profissão, ou simplesmente fornecer um título que possibilita a ascensão profissional. Mas esperar só isso do tempo que passamos lá dentro é muito pouco... Existe a possibilidade de se aprender muito mais.

Primeiro: aprender a conhecer. Para conhecer, é preciso ser curioso, aberto, estar disposto. A natureza nos faz assim quando somos crianças, mas com o passar dos anos perdemos essa infância de coração. Talvez o lugar em que estudamos não seja bem preparado para nos ensinar a conhecer. Porém, a simples situação de estar num lugar novo, com pessoas novas, ouvindo matérias novas, ajuda a retomarmos a curiosidade e disponibilidade. Hoje em dia, as possibilidades de contato se multiplicaram, sendo possível aproveitar a existência de instituições e pessoas que preencham uma carência da universidade de origem.

Segundo: aprender a ser crítico. Criticidade não é o puro e simples discordar, mas a comparação contínua entre o que nos é proposto e o ideal que temos por dentro. Quando o coração nos diz “isto me faz pensar em coisas que eu não levava em consideração” ou “isso está deixando algo de lado, não pode ser por aí”. Para aprender a ser crítico, é preciso não querer negar algo só porque não se encaixa em esquemas próprios.

Terceiro: aprender a encontrar pessoas. Podemos aprender com o outro, por ter uma história e uma sensibilidade diferente da nossa. Sempre. Confirmando ou tendo que reformular a visão que já tínhamos das coisas.

Quarto: aprender a fazer amigos. A universidade é um lugar onde, além de mim, outras pessoas estão buscando um bem em comum. Isso nos coloca de tal forma juntos que favorece o nascimento de amizade. Atenção: esta amizade não consiste daquelas companhias que nos afastam do compromisso com a realidade, que nos poupam do trabalho pessoal que a vida nos solicita – trabalho de buscar as razões para se ter esperança.

Quinto: aprender a utilidade da minha tradição. O que trazemos de nossa família pode resistir ao mundo atual ou é algo inútil, destinado a ser abandonado ou a se viver no esconderijo de uma vida privada? É o passo de nos tornarmos adultos. Para que aconteça esse passo, é preciso ter aprendido o anterior: fazer amigos (não “cúmplices” ou “companhias sentimentais”), companheiros verdadeiros que juntos seguem o ideal.

O tempo que passamos na universidade precisa voltar a ser o que era a sua proposta inicial, durante a Idade Média, quando as primeiras universidades foram fundadas: tempo em que me empenho com o mistério grandioso da criação e do meu “eu”.

A crise da Universidade e a crise do espírito

Como bem disse Otto Maria Carpeaux, “das universidades depende a vida espiritual das nações”. Infelizmente, vivemos uma grave crise da Academia; crise esta que vai muito além de conteúdos normativos. A união do pensamento iluminista e a idéia do progresso material positivista transformou as universidades numa fábrica do pensamento técnico, “útil”. Assim, dentro do espaço acadêmico – onde, outrora, havia uma densa reflexão e a produção de uma cultura espiritual – resta apenas certo ranço utilitarista e desprovido de qualquer convicção profunda.

As Universidades têm uma função basilar na construção e constituição das nações. No ambiente acadêmico, as gerações atuais alcançam a maturidade necessária para refletir acerca da realidade e pensar nas veredas que guiarão os seus filhos e netos. A partir do alvorecer iluminista, com a estruturação do repúdio formal a qualquer pensamento tradicional – tradição aqui entendida num contexto muito particular –, a Universidade perdera o sentido histórico mais profundo, ou seja, a responsável por perpetuar aos novos o mundo interior legado pelos seus antigos.

A pedagogia humanística entra em decadência quando morre no homem a sua união espiritual com o passado, com a herança recebida de seus pais. O homem sem espírito, sem o nous metafísico, limita a sua própria capacidade racional. Na mentalidade materialista e utilitarista engendrada desde o iluminismo, resta apenas o espaço para a produção de um saber meramente técnico, sem qualquer pretensão que não seja a melhoria imediata e sensível da sociedade. Vivemos a ditadura do progresso, na qual o passado é necessariamente visto como o reduto da obscuridade e atraso.

A Universidade não deve ser compreendida como nostalgia, mas não tem muito menos como finalidade a educação para um conteúdo meramente profissional. Na sua constituição mesma está como destino o cultivo do intelecto. O “hábito filosófico da mente”, como colocara John Henry Newman, era fruto do refinamento e enriquecimento das capacidades intelectuais. A ansiada busca da verdade encontra-se integrada ao amplo conhecimento cultural transmitido e recebido por meio da tradição, da família e da religião.

Se o iluminismo tirou da racionalidade o seu natural espaço tradicional, o positivismo a trancafiou dentro da mentalidade técnica. A gênese moderna da Academia tende a reduzi-la a uma instituição profissional e num centro politizado em que o conhecimento encontra-se assimilado aos ditames ideológicos. Não obstante, a Universidade tem como função a preservação e ampliação do conhecimento, a constituição de um centro de saber e reflexão, e isso deve ser redescoberto.

Editorial - O papel da universidade: educar para a criticidade


A universidade é uma nova etapa na vida. Mas o que realmente importa para um aluno na universidade? Dedicar-se exclusivamente aos movimentos estudantis ou somente à própria formação? E, em um questionamento mais amplo, qual o papel da universidade? Ser uma produção em série de tecnicistas sujeitos à ideologia dominante ou pessoas críticas, que se ponham em constante questionamento sobre o contexto em que estão inseridas?

Começando pela perspectiva do aluno, não é possível reduzir tudo a escolher entre um dos pólos citados. Fazer apenas o primeiro seria diluir-se em uma multidão ou tornar-se uma pessoa indiferente ao todo, alheia à sociedade, um individualista. É preciso considerar o seu próprio eu, sem se perder no todo e também sem se tornar alheio ao contexto. Como fazê-lo? Uma forma é confrontar seus próprios critérios com o cenário atual. Estes critérios são fruto da experiência, quando julgamos aquilo que vivemos. Alguém que utiliza a experiência para analisar algo, não simplesmente absorve valores e conceitos que são transmitidos mas busca sua coerência consigo mesmo. Com este confrontamento, este questionamento da realidade, surge também o desejo de que o que não é justo no mundo, na sociedade, seja mudado e então pode surgir alguma mudança. Desta forma acaba a indiferença para com o eu e o contexto.

Da perspectiva da universidade: criar tecnicistas – meros replicadores de conhecimentos e técnicas – ou críticos – aqueles que questionam profundamente tudo? Pode ser mais cômodo criar tecnicistas, pois para tal não é necessário se dar ao trabalho de envolver a sociedade, o contexto, mas apenas replicar modelos já criados. Este tecnicismo retira do ser humano os critérios pessoais, pois estes se manifestam na forma de questionamentos, através de interrogações, perguntas, enquanto que o tecnicismo fensina a simples aceitação e posterior replicação do aprendizado. Pouco importa o “eu” na replicação de um modelo, um desenho feito por outros.

A universidade deve educar a criticidade, que é a capacidade de confrontar o contexto, a sociedade com seus critérios pessoais. A simples transmissão de conhecimentos de uma forma dogmática, o tecnicismo, é uma forma de impedir os questionamentos e favorecer a mera replicação. Educando seres humanos para serem críticos, se faz uma intervenção significativa na sociedade, pois a criticidade incentiva a confrontar-se com o contexto, considerando o seu próprio eu sem ser individualista. Desta forma, a universidade recria seu nexo com o todo, criando interventores da sociedade, deixando, então, de ser uma ilha.

A Paz no Morro


Rocinha. Maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro. Talvez do Brasil. Ponto turístico obrigatório dos estrangeiros que visitavam a cidade. Em meados de novembro, como a mídia noticiou amplamente, a polícia pacificou o morro sem dar um único tiro. Diferentemente de alguns meses atrás, quando uma ação semelhante foi efetuada no Morro do Alemão. Na época, se viam criminosos fugindo pelo meio da mata para o morro vizinho, enquanto a polícia hasteava bandeira nacional, executava o hino brasileiro e tudo mais, representando a retomada do poder para as mãos do governo oficial. Pareciam cenas de um possível Tropa de Elite 3.

Mas afinal, o que significa pacificar as favelas? O que significam as UPP’s dentro dos morros? Elas são realmente a salvação das pessoas que vivem na Rocinha e nos tantos outros conjuntos de favelas ocupados? As favelas retomadas, como costumam dizer, estão realmente salvas, como vendem os jornais?

A polícia merece, de ato, ser valorizada e reconhecida. Muitos criminosos caíram durante a ação e o trabalho de investigação foi muito inteligente em usar armas brancas como Facebook e Twitter para monitorar a vida dos criminosos e de quem estava perto. Além disso, o que é louvável, policiais que ganham um salário irrisório recusaram um milhão de reais oferecidos pelo tráfico para liberarem o “dono” da Rocinha Nem. Sua mulher, a “xerifa”, como gostava de ser chamada, também caiu.

O problema de toda essa história é ver a mídia vendendo as UPP’s (Unidade de Polícia Pacificadora) como a salvação do mundo. Elas são um importante instrumento de combate ao tráfico de drogas e à criminalidade dentro das favelas. Porém, não são garantia de que as pessoas serão mais felizes e seguras. É preciso cuidar para que as milícias não se reorganizem dentro dessas unidades e as comunidades tenham um novo “dono”, como em outras épocas. Ou, que após a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, quando os olhos do mundo não estarão mais voltados para o Rio de Janeiro, a criminalidade retome seu lugar.

De toda forma, a pacificação de verdade não termina com a retomada dos morros. É um ponto de partida, não de chegada. Passa, fundamentalmente, por investimento em saúde, em trabalho, em educação de qualidade, para que todos tenham esperança e possibilidade de construir sua vida com dignidade, dentro ou fora das comunidades.

Educação: Aprender a “fazer por si”


“A palavra realidade está para a palavra educação assim como meta está para caminho.”

Então é impossível promover o processo educativo, em seu sentido completo, sem obedecer à realidade, levando em consideração todos os seus aspectos.

A situação que os jovens estudantes experimentam atualmente é, de um lado, um completo descaso pela sua vida e pela sua educação, do outro lado, uma alienação do indivíduo, o reduzido a mero receptor passivo de informações, conceitos e técnicas, que de nada o ajudam a olhar ou entender o mundo fora da sala de aula, a realidade. Os “mestres” não olham os alunos levando em consideração a integralidade dos fatores que os constituem, não olham paro o humano que existe e é feito por Alguém naquele instante, pois não foram também educados a olhar assim, pior, nunca foram olhados assim!

Projetos, como o PNE (Plano Nacional de Educação) constituído de 20 metas que irão vigorar pela próxima década no Brasil, visam melhorar a qualidade do ensino e a qualificação, a valorização e a remuneração do corpo docente. Bonito no papel, mas também não inclui o olhar para o indivíduo, sua situação familiar e os desejos que o constituem. Antes de tudo é preciso entender qual o objetivo da educação: é formar um homem novo, de modo que à medida que o educando alarga seu olhar diante da realidade, das matérias, dos amigos, da família, tanto mais ele é capaz de agir por si mesmo, pois foi educado a olhar para todos os fatores e decidir racionalmente. Como diz Giussani: “É preciso então, de um lado, colocá-lo constantemente em contato com todos os fatores do ambiente; de outro, deixar-lhe a responsabilidade da escolha, seguindo uma linha evolutiva determinada pela consciência de que o jovem deverá
chegar a ser capaz de, perante tudo, ‘fazer por si’.”

A crise européia e a redescoberta do homem

A crise atual fortaleceu o discurso que anunciava o fim do capitalismo. A realidade parece ser bem diferente. O Estado com o seu poder sempre fora um problema constante dentro das discussões políticas da modernidade. A reflexão a respeito das suas funções e fins se torna atual, ainda mais quando no centro da discussão se encontra o homem. Dentro da perspectiva da Escola Austríaca de economia a crise está longe de ser contabilizada na conta do “capital”. Não obstante, nessa problemática acha-se o homem esquecido. Se, por um lado, a individualidade – e não o individualismo – humana é esmagada pelos desmandos do Estado, por outro o “sujeito” é transformado numa variante dentro do cálculo, reduzido a um dos pontos do gráfico, dentro do paradigma neoclássico de economia.

O Estado, então, é responsável por criar artificialmente uma euforia no mercado ao decidir os rumos da economia mediante a injeção de moeda e através da redução de juros, reflexo de projetos de poder político, criando para os agentes econômicos a impressão de que existe mais poupança para o investimento. Tais medidas governamentais, usadas pela máquina burocrática, impulsionam o crescimento econômico de modo artificial, gerando um falso entusiasmo. Dentro da perspectiva econômica, estas ações acarretarão o aumento do acesso ao crédito, isto é, o barateamento do dinheiro. Destarte, o crescimento do índice de emprego, consumo e de riquezas refletem as medidas do governo, porém, com a manutenção dessas políticas artificiais a economia inicia a ruína por meio da perda do valor da moeda, gerando incerteza para os agentes. A solução, nesse ponto, se encontra em optar pela continuação das medidas de outrora ou, buscando remediar a crise, a adoção de projetos restritivos com o aumento de juros e redução dos gastos públicos. Surgem as falências e a depressão.

Ainda compreendendo corretamente as suas origens, podemos reduzir tudo a uma dinâmica estritamente econômica. É crucial entender não apenas a relevância e protagonismo do homem, mas sim que só ele é capaz de, usando as suas potencialidades, criar um mundo e cumprir o seu desígnio fundamental que é a felicidade. Só com tal olhar conseguimos encontrar o homem perdido em meio aos discursos nos parlamentos e ofuscado pelos cálculos que o transforma numa máquina. A crise só poderá ser solucionada através de ferramentas econômicas, da correta compreensão das estruturas de mercado. Esta sabedoria só é possível de ser entendida com a intervenção da razão do homem. Há a necessidade do mundo se reencontrar com a humanidade, ou seja, com o que de mais fundamental existe na sua natureza, o princípio basilar sobre o qual se realiza e se entende enquanto tal.

Uma boa inveja: Resenha do livro "A Tentação do Cristianismo"


Imagine um debate entre renomados intelectuais franceses ateus (um deles ex-ministro da cultura) no Collège de Philosophie da Sorbonne de Paris, cujo tema seja como o cristianismo suplantou o paganismo romano e a filosofia grega. Pois bem, em 2008 aconteceu esse debate e agora sai publicado pela editora Objetiva, com o título “A Tentação do Cristianismo”. Os intelectuais em questão são o filósofo Luc Ferry e o historiador de filosofia Lucien Jerphagnon. Um livro de deliciosa e rápida leitura.

A primeira coisa que chama a atenção é a posição humana verdadeira dos interlocutores. Numa certa hora Luc Ferry diz: "não se pode compreender nada de uma grande visão do mundo se não se sente o mínimo de simpatia por ela". E é nesse tom com que eles falam o tempo todo.

Lucien Jerphagnon é o primeiro a falar. Ele retrata a profunda religiosidade dos romanos e como um enorme formalismo os preenchia de vazio. A certa altura diz: "A que pode aspirar aquele a quem obseda o sentimento de uma ausência senão uma presença?"

Depois é a vez de Ferry, que faz um espetacular percurso pela mitologia, faz uma lista de características nossas que herdamos diretamente do cristianismo, e nem nos damos conta: a percepção da esperança como algo positivo; a democracia; a ideia do trabalho como algo bom; o valor maior de conquistar algo ao invés de herdar – e como isso minou os conceitos de escravidão e de aristocracia.

Ele termina explicando o quanto a “carne” (inclusive o Eros) é central no cristianismo, característica esta tão distante do paganismo e do budismo. O que eu amo hoje, o que me atrai é importante no cristianismo. Ferry quase soa como o então cardeal Ratzinger na missa fúnebre de monsenhor Luigi Giussani, resumindo a obra desse sacerdote milanês com a expressão "não apesar, mas através do meu humano".

No final da leitura milhões de coisas borbulham na nossa cabeça.

Uma delas é um provocante fato histórico: enquanto que no caso do cristianismo o mundo foi conquistado lentamente como por uma "boa inveja", no caso do islamismo foi sempre através da guerra, Maomé foi à guerra para converter (obviamente comparações assim não podem ser feitas hoje em dia, por serem politicamente incorretas...).

Uma outra é pensar que o espetáculo descrito das batalhas que os primeiros cristãos (Justino, Tertuliano e Agostinho) enfrentaram para comunicar uma certeza ainda hoje pode ser visto. Basta ler o discurso que o Papa fez recentemente no parlamento alemão. Que respeito à diversidade! E que provocação à razão e à liberdade! Assim deviam ser os diálogos que aconteceram entre cristãos e filósofos há 20 séculos. O que pode ser mais interessante do que um fenômeno do passado que continua no presente?

Editorial - O protagonismo ou coisificação do homem

O homem é o protagonista da realidade. Entretanto, às vezes isto é deixado de lado, como se não tivesse a menor importância, e ele é tratado como uma “coisa”, algo inanimado, irracional, sem desejos, anseios ou necessidades, sem valor ou finalidade.

Esta “coisificação” do homem é observável atualmente e bastante aceita pelo senso comum – no sentido de uma forma de pensar e agir à qual não se reflete a respeito, absorvida como que por “osmose” e, então, replicadas – atual. A replicação de pensamentos e ações alheias é um grande sinal de falta de capacidade de “fazer por si”, analisar e refletir segundo critérios próprios.

Isto nos chama atenção para problemas na educação atual. Não entendemos educação como uma mera retenção do maior número possível de informações. A verdadeira educação e sua finalidade é despertar o homem, permitir que cada indivíduo possua capacidade de olhar e entender a si próprio e à realidade a que pertence – tanto a mais próxima, como a família, quanto o mundo como um todo – e, com este entendimento, ter a capacidade do “fazer por si”. Mas, se mesmo as metas de melhora educacional deste país, visam somente melhorar qualidade de transmissão de informações – coisificam –, como esperar que surjam indivíduos independentes, que refletem sobre a realidade? Falta a educação humana.

Observamos também coisificação na mídia e política – afinal, estas caminham de mãos dadas -: UPP’s são mesmo a “salvação” permanente para os morros? Acreditamos que não. A polícia pode até erradicar o tráfico de drogas de um morro, mas não tiram seus moradores das condições de vida desumanas. Além disto, há ainda o perigo de que a pacificação dos morros sejam só para trazer uma boa imagem para o Rio de Janeiro durante os eventos internacionais – Copa do Mundo e Olimpíadas - que acontecerão nos próximos anos. E quando estes terminarem, os morros e seus habitantes – tratados como coisas, sem direitos, importância ou desejos – sejam novamente deixados para segundo plano.

O protagonismo do homem na realidade depende de que o indivíduo seja educado a agir e pensar segundo os critérios que são inerentes a ele próprio e não que seja coisificado, como uma unidade a mais numa linha de produção. Como já foi frisado antes, todo homem possui uma bússola dentro de si - que é mais grandiosa que qualquer senso comum, decisão política, modelo econômico ou opinião da mídia – que o norteia a julgar a realidade. Negar a existência disto é negar que há o humano e afirmar que há meras “coisas”. E esta conclusão implica em outra pergunta: se estes critérios são inerentes a todo humano, qual a Origem destes se não foram escolhidos por nós? O protagonismo do homem na realidade se deve a um Outro?

Occupy Wall Street

"Somos os 99%" é um refrão que se repete em praças no mundo afora, chegando até mesmo aqui, onde manifestantes acrescentaram os slogans "libere a maconha", "libere o aborto" e "fora Ricardo Teixeira", segundo reportagem do Estado de São Paulo. Os 1% restantes seriam os senhores de Wall Street.

Por que agora? Por que os países "desenvolvidos" atravessam uma enorme crise econômica. Nos EUA 46,2 milhōes são pobres e 50 milhões não têm direito nem a um sistema de saúde como o nosso SUS. Na Europa o euro está agonizando.

Defendendo os movimentos de ocupação, o polêmico cineasta Micheal Moore declarou a BBC: "quando eu era criança os ricos faziam fábricas que nos proporcionavam trabalho e casas e nossos filhos podiam chegar à universidade. Mas 'suficiente' é a palavra mais repugnante no capitalismo".

É um fato que este sistema econômico não dá conta do egoísmo humano, como acusou o então papa João Paulo II. E parece ser também inevitável que as próximas gerações dos países do hemisfério norte irão ter um padrão de vida bem inferior àquele de seus pais. Mas neste momento é útil ter um olhar histórico. O que sempre foi o mais necessário em tempos como este? O que é mais importante agora? Um texto clandestino da época soviética dizia que o erro das revoluções é serem rápidas e concretas em destruir e abstratas e incapazes em construir.

Esperança! A coisa mais importante em momentos de crise é o desejo de construir, de aceitar o sacrifício inerente a qualquer construção. Isso só existe na presença de esperança. Na certeza de que a vida é grande e vale a pena.

Esta afirmação pode soar piedosa demais para nossos ouvidos em um momento histórico positivo como o brasileiro. Mas conversando com qualquer um que atravessou os nossos anos 80 - quando algo semelhante nos aconteceu - ou que caminha hoje pela periferia das grandes cidades europeias e americanas vê-se que isso não é conversa fiada.

O gesto mais re-evolucionário, isto é, que regenera a capacidade de evolução, sempre foi o de restituir a esperança a quem a perdeu.

Uma Líbia democrática?

A história moderna da Líbia vai ser marcada pela revolução que derrubou o governo ditatorial de Muamar Kadafi. Entretanto, enquanto a ONU louva o novo regime rebelde, a “democracia” parece se transformar cada vez mais em uma ideia fortemente ideológica e marcada pela cartilha politicamente correta fiel ao espírito da modernidade secularizada. Outrossim, em meio a essa epopeia da liberdade, encontra-se o homem líbio e os seus anseios, muitas vezes ofuscado em um combate de poder.

Falar de liberdade, justiça e democracia, partindo da visão dos EUA atuais e da ONU é enxergar o mundo dentro de uma perspectiva muito restrita e ideológica. Desse modo, enquanto em nome da autodeterminação dos povos o Sudão foi praticamente esquecido pela comunidade internacional, a Líbia tornou-se alvo do interesse da democracia ocidental em relativamente pouco tempo.

A democracia, como pensada hoje, obviamente se encontra em um patamar de moralidade muito acima dos desastrosos regimes totalitários árabes. Entretanto, é necessário ter a real percepção do que se entende por “regime democrático”. Também deve ser levado em consideração o forte teor ideológico que sustenta o edifício ocidental que, ao que tudo indica, será construído no coração de tais nações árabes. Ou seja, a importação de anti-valores modernos, como o individualismo, o consumismo, a laicização ateia etc. Também o risco de acontecer como na Turquia, transformar em política governamental a desconstrução dos fundamentos culturais que alicerçam a própria existência do povo líbio.

A mentalidade positivista moderna, com a supremacia da técnica e a transformação do progresso no supremo juízo e no fundamento da moral, converteu a democracia no regime onde a verdade se esvaia em nome de uma justiça pensada como abertura ao erro. Entretanto, o verdadeiramente justo é o alicerce que deveria erguer toda a estrutura democrática. Não obstante, em nome desta democracia o secularismo ocidental vai minando as tradições e os costumes legítimos onde quer que se instale.

A democracia não democrática, ou seja, que não respeita os valores intrínsecos do homem e que, em oposição, favorece a derrocada de princípios que são essenciais para a realização deste, fere os mais profundos anseios da pessoa humana, é um sistema que persegue, acima de tudo, a aquisição do poder.

O povo líbio pode, através da construção de um novo regime, deixar apenas na história o tempo de terror de Mumar Kadafi. Porém, hoje corre o perigo de tornar-se reflexo das mazelas que assolam as nações ocidentais embriagadas com o secularismo, o consumismo, o individualismo etc. Assim, apenas valorizando a sua cultura, respeitando a condição fundamental do homem e amando aquilo que é verdadeiramente justo poderá, então, a Líbia despontar como uma nação onde a pessoa é respeitada, onde a democracia é realmente a justa abertura para a realização do homem.

Entrevista com Silvia Brandão

Coleta de Alimentos

O Dia Nacional da Coleta de Alimentos, acontece no Brasil desde de 2006 e é promovido pela Companhia das Obras: fundada por aqui em 1999, tendo nascido na Itália, em 1986, a partir da experiência do Movimento Católico Comunhão e Libertação.

Realizada no dia 5 de novembro deste ano, a coleta reuniu voluntários de 37 cidades de todo o Brasil, que trabalharam desde a “abordagem” de clientes em supermercados de todo País para propor o gesto, até a organização das doações e carregamento destas.

É marcante a felicidade dos voluntários, mesmo com o cansaço, ao longo de onze horas de campanha que, este ano, arrecadou um total de 115 toneladas de alimentos.

Sílvia Brandão, professora da Faculdade Santa Marcelina, conversou com a equipe de Bússola sobre a experiência voluntária que fez na campanha.

Há quanto tempo participa da Coleta?
Desde a primeira edição da Coleta.

O que significa para você participar deste gesto?
A Coleta é uma oportunidade de experimentar a gratuidade e abertura para encontrar outras pessoas. Eu sou tímida e tenho dificuldade para abordar as pessoas, então, no início prefiro organizar os alimentos doados. Mas todos os anos acontece a mesma coisa: acabo me comovendo com a vida que acontece ali, tantas pessoas se movem, contribuem, agradecem e quando menos espero, me encontro na abordagem também. O final do dia da coleta é sempre uma abundância de vida, de alegria que faz valer a pena todo empenho e cansaço.

O que foi mais gratificante para você neste sábado?
Neste ano fiz a coleta com os amigos do CLU (Comunhão e Libertação Universitário) e com alguns alunos meus. Marcou-me muito a vivacidade e alegria com que esses amigos jovens abordavam as pessoas, a decisão de conversar com quem muitas vezes estava apressado para propor um valor, uma experiência. Essa convicção me comoveu porque expressa a certeza de aquilo que faziam é um bem para si e para os outros. Fiquei também muito contente por um encontro com uma senhora quando passávamos os 23 pacotes de arroz no caixa, comprados com as contribuições dos universitários. Ela ficou impressionada com a atitude, comprou mais um pacote e nos doou. Depois perguntou se ela podia conhecer ao Banco de Alimentos e alguma das instituições que são por ele beneficiadas, pois e sentia que sua vida estava muito vazia, sem sentido. Contei a ela que faço caritativa em uma creche e ela disse que quer ir comigo, trocamos telefones. Fiquei impressionada com as possibilidades de encontro que a Coleta gera, um caminho para que tantas pessoas possam conhecer uma vida mais humana.

Por que o gesto da coleta atrai tantos voluntários e pessoas dispostas a colaborar doando alimentos?
Surpreendeu-me e muito me alegrou fazer o gesto da coleta com nove alunos meus. É muito bonito reconhecer que o desejo de bem que eu tenho é o mesmo de cada um de meus alunos ou de cada pessoa que entra no supermercado. Quando abrirmos espaço para essa exigência de bem e nos deixamos guiar por ela, topamos um gesto de doação de nós mesmos experimentamos uma correspondência, uma realização grande. Por isso que tantos vem nos agradecer pela iniciativa e meus alunos vieram me dizer "nossa, obrigada não imaginava que seria tão bom!”.


Para mais informações sobre a Coleta e a Companhia das Obras, visite: www.cdo.org.br/coletadealimentos/

A criança não é um mero detalhe

Há algumas semanas um amigo postou na sua página do Facebook uma citação de um político norte americano: “O direito de ‘escolha’ de um ser humano não pode se sobrepor ao direito à ‘vida’ de outro. Por quanto tempo mais conseguiremos manter nosso compromisso com a liberdade se continuarmos a negar o próprio fundamento da liberdade - a vida - aos seres humanos mais vulneráveis?” (Paul Ryan). Essa citação provocou um grande movimento em sua página. É claro que tal publicação não poderia ser ignorada e logo os “defensores dos oprimidos” surgem para defender o aborto. Os argumentos de defesa são vários, mas quase sempre repetitivos: má formação fetal, dificuldades financeiras, estupro etc – isto é, o motivo é sempre que a gravidez torna-se algo indesejado aos pais.

Não sei qual a situação nas outras cidades do Brasil, mas aqui, em minha pequena capital, deu-se início a uma verdadeira onda de manifestações abortistas. Quase todas têm se dado na forma de vandalismo, principalmente em pichações de edifícios. Frases do tipo: “Legalização do aborto já. Que o estado garanta e que a sociedade respeite”, têm sido pintadas por toda a cidade. Parece até ser a voz da sociedade a falar, mas não é. Em recente pesquisa, daquelas encomendadas pelos partidos políticos para melhor se planejarem, mais de 70% dos entrevistados se posicionaram contrários ao aborto.

Mas se não é a maioria quem apoia o aborto, por que parece que eles o são enquanto que quem é contrário é considerado atrasado, dogmático ou reacionário? Como se posicionar?

Pe. Julián Carrón disse-nos que “às vezes a nossa contribuição mais simples e decisiva é colocar a pergunta que o outro não tem a coragem de colocar (...) colocar a pergunta certa, verdadeira, é a primeira contribuição que damos ao outro: não é resolver-lhe o problema, mas começar a colocar a pergunta”.

Devemos considerar sim todas as argumentações sobre o sofrimento dos pais. Afinal, precisamos levar em consideração todos os fatores da realidade. Mas, por isso mesmo, precisamos perguntar: “a partir de qual ponto poderemos avaliar que o dano causado à vida de alguém é ‘suficientemente razoável’ para justificar o assassinato de outra”? Essa é a pergunta que não quer ser colocada. Não é por uma posição dogmática ou reacionária, mas por levar em consideração todos os fatores da realidade. Elevemos o nível do debate e não deixemos que fique no nível dos discursos ideológicos. A criança gestada não é um mero detalhe, ela é um ser humano – podemos partir daí.

Editorial - Reduzindo-nos, reduziremos

O mundo vive um período de crise. Crises econômicas e crises morais. É patente a falta de valorização à vida humana demonstrada por muitos. Em meio às crises econômicas, justos protestos contra a ganância de uma minoria são utilizados como pretextos para a defesa de uma falsa liberdade. E, mesmo diante desta instabilidade econômica e moral no ocidente, o modelo vigente, esta ideologia individualista ocidental, é exportada para o mundo, como sendo o correto, justo e verdadeiro.

Aqui, nas terras tupiniquins, qualquer agitação popular – a exemplo do “Occupy Wall Street” – já é pretexto suficiente para protestar pela liberação da maconha e pela legalização do aborto, juntamente com protestos contra Ricardo Teixeira. Está é uma demonstração da profundidade com que é tratado um tema que diz respeito à vida - o aborto -, colocado no mesmo nível de assuntos com pouca ou nenhuma importância.

Isto deixa evidente uma prova de que ou valorizar a vida - no senso comum - passou a significar manter a si próprio vivo (no “sentido biológico” da palavra) ou que a vida como um todo passou a ser tratada como um objeto que, se for inconveniente, pode ser jogado fora. Em ambos os casos, transparece que tudo pode ser determinado e tratado da forma como cada um quiser. Essa atitude egoísta é difundida por todos os lados, defendida por uma ideologia que, supostamente, defende a liberdade, o bem-estar e a “saúde pública”. Há alguma melhoria para a “saúde pública” em se permitir o assassinato de um ser humano vulnerável? É uma demonstração de liberdade poder fazê-lo legalmente? É até desnecessário dizer que para qualquer SER HUMANO a resposta para ambas as perguntas é não.

Enquanto isto ocorre nos países ocidentais, a Líbia termina sua luta contra a opressão de Kadafi. Aplaudida pela ONU, o país começa a construir sua democracia. Há o risco de que, junto com a democracia, o ocidente também exporte vícios que reduzem o ser humano a um ser que se sufoca, pois está fechado para enxergar toda a realidade. E, com isto, o novo regime pode se tornar tão opressor – ou mais – que o primeiro, negando e destruindo valores intrínsecos do homem. Entretanto, respeitando valores intrínsecos humanos, a democracia líbia pode se tornar uma “justa abertura para a realização do homem”.

A ausência de profundidade com que é tratada a questão do aborto é um reflexo da falta de valorização que tem sido dada ao ser humano. Se este é visto como um objeto que pode ser manipulado da forma como quem detém algum poder sobre ele – seja a mãe de uma criança durante a gestação ou líderes políticos de um povo – julgar conveniente, então a vida humana não significa absolutamente nada. Aceitar esta falsa ideologia é aceitar a própria redução e, assim, reduzir todo o ser humano ao nada.

Uma nação a ser descoberta

Há cerca de uma semana em um programa da TV paga, um importante embaixador explicava a uma jornalista que o problema da corrupção no Brasil nasce do fato de não sermos como a Inglaterra ou EUA. Entre nós a democracia é frágil, não existe participação popular. Em tudo esperamos do Estado e a sociedade civil não se mobiliza.

Parece-nos que a realidade seja mais complexa. Esse juízo descreve o Brasil real? Esse distinto senhor conhece nosso povo e seu empenho cotidiano? Quanto dessa opinião é só senso comum?
Quem vive a vida em nossos bairros, quem conhece o nosso interior, tem outra experiência. Quantas centenas de milhares de pessoas são atendidas em centros de saúde que surgiram da reivindicação popular? Quantos milhões de crianças são atendidas diariamente em creches comunitárias nascidas das igrejas e associações “amigos de bairro”? O que aconteceria se as centenas de Santas Casas de Misericórdia do Brasil fechassem? Um caos na saúde pública. E se fecharmos as creches comunitárias? A educação das crianças e a inserção das mulheres no mercado de trabalho sofreriam um golpe mortal.

Talvez o embaixador e o senso comum confundam ou reduzam “participação popular” apenas à possibilidade das pessoas de escolher candidatos nas eleições. E “política” às atividades dos partidos.

O Brasil possui uma história pouco divulgada de grupos e comunidades que trabalharam e trabalham para o bem comum. Isto é política. Um exemplo foi relatado pelo Lancet, uma das mais importantes revistas médicas científicas do mundo. Em sua série sobre o Brasil do último mês de maio, fala-se como a Pastoral da Criança, ação voluntária católica, foi uma das principais causas da queda da mortalidade infantil no país e está na origem do Programa de Saúde da Família, bandeira de nosso Sistema de Saúde. Isto é participação popular. Ou a Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo que, sem ajuda do governo, já possibilitou que 60 mil pessoas tivessem seu terreno e casa, escolas e transporte, e nos últimos seis anos, acesso ao ensino superior para 50 mil de seus filiados. Isto chama-se mobilização popular.

Em cada cidadezinha brasileira encontram-se exemplos assim. Existe um povo, o nosso povo, que nos é desconhecido.

Steve Jobs

Há pessoas que, durante a vida, desenvolvem uma capacidade única de seguir o que diz o coração. Um exemplo disto é Steve Jobs, que faleceu recentemente, mas deixou para trás além de inovações tecnológicas, uma bela história de vida. Na primeira parte, Jobs fala sobre quando abandonou a faculdade e passou a frequentar aulas de caligrafia, que foram fundamentais para a estética do Mac, fato que ele só percebeu 10 anos mais tarde, “ligando os pontos” da sua experiência passada com o presente. A segunda parte é sobre ser demitido da sua empresa própria empresa e a importância disto para a descoberta do que se ama fazer. Segue uma síntese da terceira parte de seu discurso feito para formandos da universidade de Stanford:

Você tem que encontrar o que você ama

Minha terceira história é sobre morte.Você tem que encontrar o que você ama

Minha terceira história é sobre morte.(...) nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.

Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.

(...) Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. (...) Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de três a seis semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas (...). Significa dizer seu adeus.

Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, (...) Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem.

Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá.

Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. (...) Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. (...)

O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém.

(...) tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.

Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog, (...) na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras:

“Continue com fome, continue bobo.”

Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem bobos.

Obrigado.

Noticiários não mentem. Omitem, conforme for conveniente fazê-lo.

Sem dúvida, a Jornada Mundial da Juventude foi um acontecimento muito importante para o catolicismo neste ano. Quando se trata da Igreja e do Papa, a postura mais comum na mídia é da crítica e oposição. Muitas vezes são desconsiderados fatos e dados importantes para escrever uma matéria que, supõe-se, vende mais jornais, pois corresponde à “moda”. Esta atitude comum da mídia foi citada por Andrew Brown no jornal inglês “The Guardian”. Segue a síntese da matéria:

Se esta não é notícia

Se eu fosse católico, ficaria bastante aborrecido com a BBC. O noticiário desta manhã transmitiu um serviço sobre a visita do Papa a Madri, concentrando-se inteiramente nas “milhares” de pessoas que protestaram contra essa visita. Não mencionou sequer uma vez (...) o extraordinário encontro católico global em que o Papa participa e que atraiu na capital espanhola cerca de um milhão e meio de jovens do mundo inteiro. Que aprovemos ou não, contudo trata-se de um acontecimento importante e, sobretudo, é digno de nota porque é inesperado e contrasta com aquilo que divulgam os meios de comunicação. Então, por que motivo não é mencionado?

Poder-se-ia pensar que se trata de um exemplo de preconceito consciente contra os católicos e talvez o seja. Todavia, duvido. (...) Suspeito que (...) é algo muito mais cultural. Os jovens que participam em peregrinações organizadas para saudar o Papa não são aquele tipo de pessoas que a maior parte dos jornalistas querem tornar-se ou já foram. Eles são a quinta-essência do que está fora de moda.

Os jornalistas são quase inevitavelmente sensíveis à moda nas ideias, em parte porque a sua sorte e as suas carreiras dependem muito dela. (...)

E não se trata apenas da BBC. Na internet ouvi na “Deustche Welle” (...): “O Papa Bento XVI chegou à capital espanhola na quinta-feira para participar das celebrações da Jornada Mundial da Juventude (...) o preço da visita, pago pelos contribuintes, suscitou muitas reações num país sufocado pela crise econômica (...) cerca de cinco mil pessoas saíram pelas ruas de Madri para protestar contra a chegada do Papa por ocasião do encontro (...)”.

Sem dúvida, as contestações são uma notícia, mas a capacidade que o Cristianismo tradicional tem de atrair uma multidão de um milhão e meio de jovens parece-me algo muito mais digno de ser divulgado (...).

Naturalmente, os números não demonstram a verdade, mas são critérios de avaliação do compromisso e da importância política. O número de pessoas que chegaram a Madri para ver o Papa é trezentas vezes superior àquele de quantos chegaram à capital espanhola para protestar. Então, qual é o grupo mais importante do qual se deve dar a notícia?

Luta pela Esperança

“A não violência é a arma dos fortes”. Respaldando-se nestas palavras de Gandhi, três mulheres fizeram uma postura completamente nova diante da adversidade. “A luta não violenta pela segurança e pelos direitos das mulheres na participação do processo da construção da paz". Esta foi a justificativa para a premiação do trio com o Prêmio Nobel da Paz de 2011.

A presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf; a ativista e também liberiana, Leymah Gbowee; e a jornalista e ativista iemenita, Tawakkul Karman, tem em comum o fato de não se calarem diante da opressão do povo (principalmente da mulher), das injustiças e das guerras.

Ellen Johnson Sirleaf foi a primeira mulher a ser livremente eleita presidente de um país africano, em 2005. Em seu governo, trabalhou para assegurar a paz em seu país, promover o desenvolvimento econômico e social e reforçar o papel das mulheres na construção da Libéria.

Leymah Gbowee mobilizou um grupo de mulheres cristãs e muçulmanas pelo fim da guerra no país, promovendo uma “greve de sexo”, assegurando ainda, a participação feminina nas eleições.

Tawakkul Karman teve importante participação na Primavera Árabe e na luta pelos direitos das mulheres, pela democracia e pela paz no Iêmen.

O que move estas mulheres? Algo que está no coração de todos os seres humanos: os desejos elementares de liberdade, justiça e verdade que não foram abafados, calados ou reprimidos. Pelo contrário, tornaram-se motor para a luta pacífica em favor da democracia e da paz. Através do despertar das respostas a esses desejos no presente, é possível vislumbrar uma certeza para o futuro, que chama-se Esperança.