quinta-feira, 19 de abril de 2012

Um desafio para a educação - parte 1

“Como pode um professor dar uma boa aula se ele é quase um escravo, ganha um salário indigno e ainda tem os alunos que não se interessam por nada”? – essa foi uma pergunta feita por um professor a uma senhora. Na verdade essas são as críticas feitas por quase todos, basta gastar um tempo numa sala de professores de qualquer escola para escutar as mesmas reclamações.

Estes mesmos professores, quando pensam em soluções, as fazem partindo das únicas variáveis que eles não controlam: os alunos e o sistema educacional. Para uns, para que a escola cresça, é preciso retirar os alunos desinteressados, “uma maçã podre estraga o cesto”. Outros dizem que a solução é que os colégios entrem no ritmo de “uma educação para o vestibular/Enem”, e todo o foco do ensino deva ser o de preparar os alunos para uma prova.

Há alguns anos o ideal da educação era o de forma cidadãos. Para isso, até o professor de matemática deveria ensinar uma visão crítica do mundo – e a matemática ficava em segundo plano. Hoje a situação se agravou e o objetivo do ensino é que os alunos consigam marcar bolinhas. A meu ver, nenhum e nem outro (ainda que o segundo seja uma redução ainda mais agressiva).

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Num trecho de um romance do Joseph Conrad , o autor nos fala sobre o trabalho. O personagem havia usado todo o dinheiro em um barco que afundara antes dele sequer vê-lo, e agora precisava reconstruí-lo: “Subi a bordo. O casco ressoava sob os meus pés como uma lata vazia de biscoitos que você saísse impelindo aos pontapés pela sarjeta; sua constituição não era anda sólida, sua forma não tinha nada de bonito, mas eu empregara naquele barco uma quantidade suficiente de trabalho árduo para começar a amá-lo. (...) Ele me dera a oportunidade de revelar-me um pouco – descobrir do que eu era capaz. Não. Não que eu goste do trabalho. Prefiro me entregar à preguiça e ficar só pensando em todas as coisas que podem ser feitas. Não gosto do trabalho – ninguém gosta – mas gosto do que o trabalho proporciona – a oportunidade de se encontrar. A sua própria realidade – para você, não para os outros – que nenhum outro homem jamais terá como conhecer”.

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A senhora do início desse artigo respondeu à pergunta do professor: “o problema é que se confunde trabalho com salário. Não se percebe que são coisas diferentes. O trabalho é uma vocação e, no caso do professor, quando este o exerce de modo errado ele mata o futuro de pessoas, arruína o sonho de muitos”. Talvez seja esse o primeiro ponto ao qual tenhamos que resgatar: “o trabalho como vocação”, i.e., como uma inclinação que eu decido responder porque me constrói e constrói a outros. Continuaremos.

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