domingo, 11 de março de 2012

Enfrentando os desafios de ações em doenças infecciosas emergentes a partir do realismo existencial


Desde 2005, temos desenvolvido um projeto de extensão universitária, ministrando palestras sobre doenças infecciosas emergentes como dengue, tuberculose, hanseníase, leishmaniose, entre outras, para comunidades carentes, além de realizar campanhas de detecção de tuberculose (TB) e de hanseníase. De alguma forma, não bastava. Nas campanhas, conseguíamos detectar poucos casos e nas palestras, nem sempre as pessoas estavam atentas. Isso nos corroía por dentro. Faltava algo. Em um Simpósio de tuberculose, ouvimos uma ex-paciente de TB dar o seu testemunho. Ela vivia na favela da Rocinha, passou por dois tratamentos contra a doença. Decidiu ajudar sua comunidade, realizando busca ativa e acompanhando quem estava em tratamento. A partir desta iniciativa, entendemos por onde deveríamos caminhar. Formar pessoas da própria comunidade, capacitando-as. Decidimos realizar um curso de atualização diagnóstica em doenças infecciosas emergentes para agentes comunitários de saúde.

Na segunda edição do curso, que foi em 2010, começamos a primeira aula dizendo aos alunos: “Não estamos aqui para emitir certificados, estamos aqui para lhes provocar, provocar a olhar para a realidade, que ela lhes corroa. Que vocês não durmam mais tranquilos. A responsabilidade é pessoal.” E assim foi. No dia da campanha de busca ativa de casos de TB, um agente comunitário estava muito feliz por ter conseguido trazer uma senhora que havia muito tempo que não queria fazer o exame e que só estava lá porque nosso antigo paciente a tinha acompanhado. No final desse dia, os alunos nos diziam que aquilo que eles haviam vivido era irreal, de tão ideal que era. Um deles relatou: “Nunca mais vou esquecer que a realidade nos provoca”. E o lema do curso que se tornou camiseta: “A realidade nos desperta”.

A cada ano cresce o desafio porque temos que retomar o significado. Nada é óbvio. O que foi o ano passado pode não ser o mesmo este ano. Aos poucos, escutando os alunos reportarem como está o diagnóstico de hanseníase em seus postos de saúde, vamos novamente entendendo qual é o nosso novo desafio. Continuar provocando, agora não apenas os agentes de saúde, mas os demais profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, e outros. E lá fomos nós incomodando novamente: “O paciente abandona o tratamento por falta de qualidade no atendimento...“. Continuamos a fazer uma trajetória, nos empenhando com a certeza que aquilo que aprendemos com o padre e filósofo italiano Luigi Giussani nos lança ao desafio de olhar para a realidade com toda energia, retomando sempre o significado daquilo que fazemos, e nos salva da hipocrisia.

Aparecida Tiemi Nagao-Dias - coordenadora do projeto (Universidade Federal do Ceará); João Carlos Chaves – bolsista de Extensão; Alexandre Casimiro de Macedo – farmacêutico

(Texto publicado também na revista PASSOS: http://passos.tracce.it/)

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