Causa estranhamento um filme mudo e em branco e preto em pleno ano de 2012. Chega-se a pensar que é uma reprodução de algum longa-metragem antigo. Mas não é! Desta forma inusitada a fita nos mostra não só que não é necessária a utilização de recursos de alta tecnologia para fazer uma excelente produção, mas que a comunicação não se dá apenas por palavras, também por gestos e expressões, que, por vezes, dizem muito mais.
O longa se passa em meados da década de 1920, conta a história de um astro de cinema mudo, George Valentin que começa a ver sua carreira desmoronar por não aceitar a nova forma de se fazer filmes, o cinema falado. Ao mesmo tempo, Peppy Miller, graças à ajuda de George no início, começa a ascender em sua carreira de atriz. George e Peppy acabam por se apaixonar e a trama do filme se desenvolve a partir deste romance. Enquanto um está em crise na carreira, o outro torna-se uma estrela, analogamente à transição do cinema mudo para o cinema falado.
Para não ir além e contar o final – o que poderia deixar alguns leitores muito descontentes – chamo a atenção para outra analogia do filme com as transições do cinema, neste caso, no cinema atual: a transição da projeção de película 35 mm para a projeção digital ou ainda, a utilização de animações e efeitos especiais contra a valorização da atuação por si só.
A primeira questão é principalmente sobre qualidade de imagem. A segunda: animações e efeitos especiais contra a atuação. Não que um exclua totalmente o outro, mas o que muitas vezes acontece é que os efeitos especiais e animações são supervalorizados, em detrimento da atuação.
Filmes com a finalidade comercial acima da artística costumam pecar neste aspecto, tornam-se filmes para espantar pela qualidade da tecnologia, para se dizer “olha, esta explosão parece de verdade!”. No entanto, é um espanto que, acompanhado por um saco de pipocas e coca-cola, não passa de uma distração. É muito diferente de um espantamento causado pela bela atuação do elenco de um filme, que é algo que pode chegar a comover pela beleza, é um espanto que não distrai, mas nos provoca e comove. A provocação que se torna ainda maior sendo um filme feito como os antigos, de épocas nas quais nem sequer a imaginação mais fértil conceberia a tecnologia que temos hoje. E mais: durante todo longa há apenas uma fala do ator principal. Isto nos faz pensar que aquilo que nos provoca por ser tão belo não parte da tecnologia. Parte do humano. E não é dependente de palavras, pois pode ser comunicado por gestos, por uma expressão, por algo que nossa visão nos permite perceber que, realmente “vale mais que mil palavras”.
Este filme, concorrendo a prêmios – e vencendo muitos deles - com tantas outras “superproduções digitalizadas” nos mostra que a tecnologia não é obrigatória à expressão artística e também não pode, nem consegue suprimí-la. No desenrolar do enredo, ao se observar a história de George Valentin, surge uma outra questão: a arte e o artista podem se expressar mesmo após mudanças tecnológicas ou, como equipamentos eletrônicos, tornam-se obsoletos? Assistam a este excelente filme e, no final, saberão!




