quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma boa inveja: Resenha do livro "A Tentação do Cristianismo"


Imagine um debate entre renomados intelectuais franceses ateus (um deles ex-ministro da cultura) no Collège de Philosophie da Sorbonne de Paris, cujo tema seja como o cristianismo suplantou o paganismo romano e a filosofia grega. Pois bem, em 2008 aconteceu esse debate e agora sai publicado pela editora Objetiva, com o título “A Tentação do Cristianismo”. Os intelectuais em questão são o filósofo Luc Ferry e o historiador de filosofia Lucien Jerphagnon. Um livro de deliciosa e rápida leitura.

A primeira coisa que chama a atenção é a posição humana verdadeira dos interlocutores. Numa certa hora Luc Ferry diz: "não se pode compreender nada de uma grande visão do mundo se não se sente o mínimo de simpatia por ela". E é nesse tom com que eles falam o tempo todo.

Lucien Jerphagnon é o primeiro a falar. Ele retrata a profunda religiosidade dos romanos e como um enorme formalismo os preenchia de vazio. A certa altura diz: "A que pode aspirar aquele a quem obseda o sentimento de uma ausência senão uma presença?"

Depois é a vez de Ferry, que faz um espetacular percurso pela mitologia, faz uma lista de características nossas que herdamos diretamente do cristianismo, e nem nos damos conta: a percepção da esperança como algo positivo; a democracia; a ideia do trabalho como algo bom; o valor maior de conquistar algo ao invés de herdar – e como isso minou os conceitos de escravidão e de aristocracia.

Ele termina explicando o quanto a “carne” (inclusive o Eros) é central no cristianismo, característica esta tão distante do paganismo e do budismo. O que eu amo hoje, o que me atrai é importante no cristianismo. Ferry quase soa como o então cardeal Ratzinger na missa fúnebre de monsenhor Luigi Giussani, resumindo a obra desse sacerdote milanês com a expressão "não apesar, mas através do meu humano".

No final da leitura milhões de coisas borbulham na nossa cabeça.

Uma delas é um provocante fato histórico: enquanto que no caso do cristianismo o mundo foi conquistado lentamente como por uma "boa inveja", no caso do islamismo foi sempre através da guerra, Maomé foi à guerra para converter (obviamente comparações assim não podem ser feitas hoje em dia, por serem politicamente incorretas...).

Uma outra é pensar que o espetáculo descrito das batalhas que os primeiros cristãos (Justino, Tertuliano e Agostinho) enfrentaram para comunicar uma certeza ainda hoje pode ser visto. Basta ler o discurso que o Papa fez recentemente no parlamento alemão. Que respeito à diversidade! E que provocação à razão e à liberdade! Assim deviam ser os diálogos que aconteceram entre cristãos e filósofos há 20 séculos. O que pode ser mais interessante do que um fenômeno do passado que continua no presente?

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