quinta-feira, 1 de março de 2012

A crise da Universidade e a crise do espírito

Como bem disse Otto Maria Carpeaux, “das universidades depende a vida espiritual das nações”. Infelizmente, vivemos uma grave crise da Academia; crise esta que vai muito além de conteúdos normativos. A união do pensamento iluminista e a idéia do progresso material positivista transformou as universidades numa fábrica do pensamento técnico, “útil”. Assim, dentro do espaço acadêmico – onde, outrora, havia uma densa reflexão e a produção de uma cultura espiritual – resta apenas certo ranço utilitarista e desprovido de qualquer convicção profunda.

As Universidades têm uma função basilar na construção e constituição das nações. No ambiente acadêmico, as gerações atuais alcançam a maturidade necessária para refletir acerca da realidade e pensar nas veredas que guiarão os seus filhos e netos. A partir do alvorecer iluminista, com a estruturação do repúdio formal a qualquer pensamento tradicional – tradição aqui entendida num contexto muito particular –, a Universidade perdera o sentido histórico mais profundo, ou seja, a responsável por perpetuar aos novos o mundo interior legado pelos seus antigos.

A pedagogia humanística entra em decadência quando morre no homem a sua união espiritual com o passado, com a herança recebida de seus pais. O homem sem espírito, sem o nous metafísico, limita a sua própria capacidade racional. Na mentalidade materialista e utilitarista engendrada desde o iluminismo, resta apenas o espaço para a produção de um saber meramente técnico, sem qualquer pretensão que não seja a melhoria imediata e sensível da sociedade. Vivemos a ditadura do progresso, na qual o passado é necessariamente visto como o reduto da obscuridade e atraso.

A Universidade não deve ser compreendida como nostalgia, mas não tem muito menos como finalidade a educação para um conteúdo meramente profissional. Na sua constituição mesma está como destino o cultivo do intelecto. O “hábito filosófico da mente”, como colocara John Henry Newman, era fruto do refinamento e enriquecimento das capacidades intelectuais. A ansiada busca da verdade encontra-se integrada ao amplo conhecimento cultural transmitido e recebido por meio da tradição, da família e da religião.

Se o iluminismo tirou da racionalidade o seu natural espaço tradicional, o positivismo a trancafiou dentro da mentalidade técnica. A gênese moderna da Academia tende a reduzi-la a uma instituição profissional e num centro politizado em que o conhecimento encontra-se assimilado aos ditames ideológicos. Não obstante, a Universidade tem como função a preservação e ampliação do conhecimento, a constituição de um centro de saber e reflexão, e isso deve ser redescoberto.

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