Essa pergunta brota espontaneamente quando estamos diante de algo bonito, intrigante, mas também diante de algo doloroso ou incompreensível. Perguntar-se “por que?” é espontaneamente natural. Não somos nós que decidimos. É algo que emerge em nós sem nos consultar. O nosso livre arbítrio entra em jogo depois. Aí então podemos censurar, calar, distrair-nos... um segundo depois que a pergunta apareceu.
Outro dia, num simpósio acadêmico de alto nível, cheio de homens de ciência, assisti a um espetáculo parecido. As novas descobertas relatadas eram fascinantes demais! Mas o que mais me chamou a atenção é que às perguntas “por que?” o palestrante respondia com um “como”. Essa pequena mudança foi tão sutil que talvez quase ninguém notou. “Por que o gene funciona assim? Porque o mecanismo da síntese protéica...”. “Por que essa criança sofre essa situação? Porque o contexto social em que ela cresceu...”. “Por que as estrelas brilham no céu? Porque a energia que produzem...”. Numa fração de segundo, olhando para a curiosidade que também em mim brotava, entendi que todos nós desejávamos inconscientemente algo mais.
Reduzimos nossa exigência de significado ao desejo de conhecer um mecanismo. É o triunfo do positivismo, que diz “só existe aquilo que vejo, sinto, toco. O resto é abstração”.
Obviamente conhecer o mecanismo é interessantíssimo. Digo mais, é o sex-appeal da realidade. O problema é quando nos detemos aí, paramos na análise. Esta parece que nos satisfaz, parece ser mais profunda... Ao contrário, a análise nos deixa na superfície, não fala nada da natureza das coisas.
Os tempos de hoje nos sufocam. Não tanto porque nos preenchem de coisas para fazer, nem porque nos impõem uma competitividade desumana ou por ditarem modelos que todos devemos seguir. Mas porque conspiram para nos convencer que “por que“ e “como” são sinônimos.
Deixar-se ferir pelas coisas que cruzam o horizonte de nossa consciência... isto sim é digno da estatura do ser humano. Isto sim abre a porta para uma vida como aventura. Isto sim revela que a “abstração” é, no fundo, a realidade na sua profundidade.
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